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Feira do livro da capital quase terminando. Eu precisava ir lá conferir a septuagésima edição dessa festa dos livros de alguma forma. Me aventurei em instalar o aplicativo e combinar uma viagem compartilhada. Fiquei com frio na barriga. Não conhecia a motorista e nem as passageiras que iriam junto. A motorista, uma senhora bem gente boa e que se chamava Marivone e não Verônica, como constava no aplicativo. Enquanto buscávamos os demais passageiros, me confidenciou que precisou criar o perfil no nome da irmã e assim acabou ficando. Talvez fosse um disfarce e não quisesse admitir. Na frente do hospital central da cidade embarcaram duas passageiras. Uma iria para a capital aproveitar o final de semana com o filho, que mora lá com o pai. A outra, com uma ressaca, estava retornando de uma festa que tinha ido madrugada adentro. Mais adiante, num hotel entrou uma jogadora de vôlei, que estava retornando ao Nordeste após uma temporada na Serra. Enfim, viajei com pessoas desconhecidas, turistei na capital gaúcha com a minha própria companhia em um sábado pós-feriado e almocei sozinho em um lugar que é cartão postal da cidade e que respira arte e cultura. Mais uma aventura para a conta.
Confesso que retornei um pouco cansado - e muito se deve às altas temperaturas do dia - mas me sentindo muito mais vivo de quando embarquei. Sempre que possível, precisamos fugir da nossa rotina. Sair do piloto automático. Desacostumar com o "de sempre". Assim, a vida deixa de ser monótona e chata e passa a ganhar mais graça e cor. É nas vezes que nos permitimos mudar de rota que nos reencontramos pelo caminho. A gente se acostuma a viver na nossa zona de conforto e perde grandes experiências e momentos por simples medo. Temos receio de pedir outro prato do cardápio, porque vai que a gente não goste. Temos medo de conhecer novas pessoas, porque vai saber o que vão pensar da gente. Temos pavor de tentar mudar a rota, porque vai que a gente se perca. A gente se acostuma a correr e não olhar para o lado, porque vai que a gente se distraia. A gente se acostuma a ficar preso dentro do nosso mundinho, sem perceber tantos outros mundos que podemos desbravar.
Tem uma crônica da Marina Colassanti (“Eu sei, mas não devia”), que fala justamente sobre isso e me toca profundamente sempre que leio ou escuto alguém lê-la (na voz do Antônio Abujamra é ainda mais fantástica). A autora nos lembra como, muitas vezes, nos acomodamos e tornamos a nossa própria vida vazia em uma rotina repetitiva e que não nos permite vislumbrar a beleza que está ao nosso redor. A gente se acostuma a deixar a cortina fechada e não olhar para fora. Ela finaliza esse texto, que é tão lindo que eu mesmo gostaria de ter escrito, com um trecho que merece encerrar essa crônica também (mas não se acostumem!). “A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma”. Sim, eu também sei, a gente se acostuma, mas não devia.
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